quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Elegia


A peça que dá nome ao nosso projeto foi escrita por volta de 1850, pelo compositor húngaro Johann Kaspar Mertz (1806-1856). Ela não só dá mostra das mudanças por que a literatura do violão passou em meados do séc. XIX, em função da transformação do gosto musical do público - que foi tomado de assalto pelos recitais de piano e o inchaço das grandes orquestras -, mas também testemunha a decadência que o instrumento sofreu por esta mesma razão. Se nas primeiras décadas do século XIX o violão gozava de imensa popularidade nas maiores capitais europeias, nesta época alguns violonistas e compositores chegaram mesmo a passar por graves dificuldades materiais.

Intitulada Elegie für die Guitare, a peça é um lamento, um epitáfio, em que o violão cria a ilusão de estar cantando (sua própria morte?) e sendo acompanhado por instrumentistas invisíveis, como numa ária de Bellini, ou realizando intensas figurações em torno de uma melodia hesitante e evocativa...

Imaginamos se nela Mertz não estaria de alguma forma encarnando toda uma geração de músicos que viam a tradição da música intimista e mágica do violão - seu significado afetivo de proximidade, confissão, familiaridade e transcendência - sendo relegada ao ostracismo.
Mas Mertz não foi o único compositor a escrever elegias. Franz Liszt - de quem já falamos neste blog -, o herói do piano, também as compôs. Isso nos fez suspeitar da possibilidade de que ambos, entre outros compositores, tenham encontrado sua inspiração em outra elegia - desta vez um poema, a Elegia de Marienbad, escrito em 1823 pelo consagrado Johann Wolfgang von Goethe, figura seminal da cultura alemã moderna. Goethe escreveu esta obra por ocasião de uma grave desilusão amorosa, quando contava 74 anos de idade, e na qual esteve envolvida a jovem cuja imagem vemos no início deste post.

Ficou curioso(a)?

A peça de Mertz tem sido apresentada em nossos recitais após a leitura de algumas estrofes do poema de Goethe. Convidamos a todos para conhecerem estas e outras belas obras, nos três últimos recitais de nosso projeto!

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Ricardo Marçal

Ricardo Marçal

O violonista belo-horizontino Ricardo Marçal (29) tem se dedicado a uma crescente agenda de concertos pelas mais diversas regiões do Brasil, cativando a simpatia do público e atraindo a atenção de meios de imprensa como os programas “Violões em Foco” e o tradicional “Música e Músicos do Brasil”, ambos da Rádio MEC-FM. É bacharel em Música pela UFMG na classe do professor Fernando Araújo, foi bolsista do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão por dois anos, prossegue seus estudos regulares como aluno particular do aclamado violonista Fábio Zanon e, a convite do maestro Oscar Ghiglia, tem se aperfeiçoado nos cursos anuais de verão da Accademia Musicale Chigiana de Siena, na Itália. Como solista tem se apresentado regularmente em importantes séries por Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia e São Paulo. Seus projetos para 2012 incluem a 2a temporada do projeto "Elegia ao Violão", uma nova turnê com o quarteto de violões Corda Nova, do qual é membro fundador e uma turnê estadual com o Quarteto de Cordas da família Barros. Como pesquisador, Ricardo está elaborando um trabalho de pesquisa sobre o repertório de música de câmara com violão do início do séc. XIX em parceria com o historiador Gerson Castro e é professor dos cursos de história da música e apreciação musical da Academia de Ideias. Além disso, coordena a criação de uma série de música de câmara nos municípios mineiros de Betim, Brumadinho, Contagem, Crucilândia e Esmeraldas. (4/2012)

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